Inspiração da música de Chico buarque - construção.

O sol ainda não raiara, nem o seu relógio despertara, mas seus olhos já estavam abertos, olhando para o teto, depois para a mulher ao seu lado, e depois para a janela, e fizera essa dança durante toda a noite, durante toda a madrugada, pois o sono lhe estava em falta.
Respirou fundo, como se por ultimo suspiro, piscou para molhar os olhos e os voltou para a sua esposa. Como era linda, como dera sorte, trabalhadeira, mão firme, responsável, mãe de seus quatro filhos, que filhos lindos, como deram sorte!
Beijou a mulher, que logo acordou, e lhe retribuiu o beijo, e ali ficaram rolando de um lado para o outro, acariciavam-se, amavam-se, como se aquela fosse a ultima vez. Cada beijo era como um ultimo, como uma despedida e um agradecimento de todos esses dez lindos anos juntos. Um pouco complicados, mas lindos. Como dera sorte!
Levantaram-se, banharam-se, se observaram, como era linda, com a pele parda, o cabelo escuro e os seios ainda duros, estampando o alimento de seus filhos. Enxugaram-se, ela se vestiu e foi para a cozinha, ele deitou-se na cama, olhou para o teto, enxugou a lágrima no rabo do olho, respirou fundo, travou o maxilar para segurar o choro que se aproximava. Colocou a roupa que pendia no cabide, e foi para o quarto dos filhos.
Ao entrar, os observou, eram lindos, puxaram a mãe, a pele parda e o cabelo escuro, não eram feios como o pai, e como ele dera sorte! Passou na cama de cada um, despertando-os com carinhos. Fez com que dessem as mãos e os puxou em fila para a cozinha.
A mãe se assustou ao ver os filhos um tanto sonâmbulos em fila.
- Por que os acordou?- ela perguntou.
- Já passa da hora. – ele disse.
- Ainda nem são seis, você que acordou cedo hoje.
- Mesmo assim, eles têm que acordar junto com agente, logo estou indo trabalhar e quero em despedir.
A mulher não respondeu, nem comentou como aquilo lhe parecia estranho. Serviu o café ao marido, o leite as crianças, e o pão com manteiga para todos, menos para o caçula, que só mamava de manhã.
Depois de terminarem, todos reunidos a mesa, o caçula no colo da mãe, o homem olhou para todos, focava-se por segundos em cada um, registrando as afeições, para que na guerra lhe servissem de consolo, olhou para o café, disfarçando a inundação de seus olhos. Quando estável novamente, os encarou de novo. A mulher lhe sorriu, ainda se lembrando do ato de meia hora atrás.
Ele levou sua xícara até a pia, e recolheu as demais. Todos se levantaram as crianças um tanto dormentes. Ele apoiou-se na pia, e mais uma vez travou o maxilar, suspirou, a esposa tocou-lhe o ombro desconfiada, ele jogou água no rosto para disfarçar.
Virou-se e começou a despedida, cada um como se fosse o único: abraçou o de quinze, o mais velho, beijou seu rosto, e o apertou entre os braços. Depois a de treze, beijou-a, mexeu nos cabelos, como era parecida com a mãe. Depois o de oito, era pequeno, e sumia entre os braços do pai. Depois o de três que logo tirou a chupeta da boca e beijou o pai, isso o fez soluçar.
Andou até a porta, a mulher o acompanhou até fora, olhou nos seus olhos, que já brilhavam.
- Está tudo bem?
- Sim, vai ficar tudo bem, é a palpitação! – ele abraçou-a depois a beijou, e pronto, virou-se e foi, passou pela cerquinha de madeira, e partiu, para nunca mais voltar.
Atravessou a rua com passos pequenos e minuciosos, calculados há muito tempo, passos tímidos e um tanto fúnebres, fazendo-lhe par com a cabeça baixa. Subia o morro, passo após passo, fazendo o ar sair pelas narinas, fazendo-lhe parecer máquina, e após alguns quarteirões e de ter saído da vista da mulher, parou em frente a um boteco.
Bateu com força na porta de ferro, avermelhada pela ferrugem. A porta subiu um pouco, e um homem com uma enorme barriga de fora, ralhou roucamente:
- Mas o que você está fazendo aqui há essa hora? Ainda não abrimos se não percebe!
- Quero duas garrafas de cachaça, um copo e uma sacola onde eu possa os esconder. – o homem disse.
- Estamos fechados!
- Não me interessa, eu preciso e... – jogou umas notas pela fresta que estava aberta da porta -... pago dobrado!
O homem gordo abaixou-se e pegou as notas, as contou, fixou o olhar no homem, depois bufou virando-se para pegar a mercadoria. Ruídos de vidro saíram de dentro do bar, e minutos depois o dono do estabelecimento apareceu com uma mochila rosa e disse:
- A sacola é da minha filha.
O homem pegou-a, escondendo os olhos e com um sorriso aparecendo do lado direito da boca:
- Não faço questão da cor. – virou-se e continuou subindo.
O gordo o observou pensativo, coçou a barriga, mexeu nos bigodes, virou-se e desceu a porta com força, o que explicava alguns amassados na parte inferior dela.
O homem subiu o morro em seu ritmo maquinário. Parou um pouco, tirou um cigarro do bolso e começou a fumar tremulo. Terminou rápido, depois voltou a subir até que chegou à Construção.
Sentou ao lado da cerca de ferro e esperou até que o resto dos operários chegasse, fumou mais uns três cigarros, e o resto dos trabalhadores chegou, desejavam bom dia, mas ele só balançava a cabeça, não fazia questão de sorrir, não fazia questão de agradecer, não fazia questão de retribuir, não fazia questão de mais nada.
Os portões foram abertos, ele entrou, subiu os andaimes, e foi para o quinto andar do prédio que construía, do qual, não desceria com brilho nos olhos, se é que ainda cintilavam.
Começou a fazer as paredes subirem, passava o cimento, depois mais um tijolo. Tijolo por tijolo, cimento por cimento, até formar as paredes solidas que acolheriam uma família feliz. Feliz, mas com uma felicidade ideológica, uma felicidade forçada, da qual já estava cansado.
Cigarro após cigarros, lágrima após lágrima, parede após parede, solidão após solidão. E assim se passou toda a manhã. A sirene tocou, o rapaz do almoço passou, entregando as marmitas. Entregou uma ao homem, mas ela dançou um pouco no ar e depois caiu, pediu desculpas e entregou outra.
O homem sentou-se na beirada do andar, olhando todo o movimento ali em baixo, os carros passavam rapidamente, buzinavam, alguns ciclistas pedalavam, uma senhora estava sendo assaltada na esquina. Continuou ali, sentado, como se fosse sábado, e toda aquela paisagem fosse sua televisão, comia seu feijão com arroz como se fosse um príncipe. E ali ficou, até que o sol passou diante dos seus olhos que ainda se inundavam constantemente, observava um pouco embaçado, os policiais ali em baixo, repreendendo uma rebelião, batiam com o cassetete, cerravam os dentes, franziam o cenho, defendiam sua ideologia canibal, que devorava toda a esperança, toda a alegria, todos seus amigos. Devorava a todos que tentavam opinar, ou mesmo que não concordavam. Se não os devorava os exilavam, para onde o sabiá não canta.
Continuou ali sentado, enquanto todos partiam, desejando uma boa noite, mas ele só balançava a cabeça, não fazia questão de sorrir, não fazia questão de agradecer, não fazia questão de retribuir, não fazia questão de mais nada.
Saiu da beirada, pegou na mochila rosa as duas garrafas de cachaça, e começou a se inundar, a se afogar no mar que se naufragou, e ali, copo após copo chorava e exclamava todos seus erros de toda sua vida pacata. Pedia perdão, pedia apoio, pedia coragem ao Deus que não foi presente nem naquele momento, nem nos anteriores. Não foi presente na hora de defender seus amigos, de defender a vida, de defender a justiça. Bebia toda aquela angustia e toda aquela ira que lhe fazia tão mal. Começou a acender vários cigarros, e a beber mais ainda. Vomitou todos os sapos engolidos.
Com a garrafa na mão, começou a dançar a marcha fúnebre que os violinos tocavam. Sambava, cantava, ria, xingava, chorava.
Acabaram-se os cigarros, o ultimo gole foi tomado, a hora chegara.
Andou até a beirada do andar, e olhou todo o tráfego, estava cansado e irado pela cachaça de graça que teve que engolir, e pela fumaça desgraça que teve que tossir. Até que se encorajou e tropeçou na bebedeira, flutuou no ar como o sabiá que seus artistas não ouviam mais. Para que logo depois caísse como um pacote flácido no chão.
Agonizou toda a derrota que sofria agora, todo o orgulho ferido e morreu na contra mão atrapalhando o tráfego.

O sol ainda não raiara, nem o seu relógio despertara, mas seus olhos já estavam abertos, olhando para o teto, depois para a mulher ao seu lado, e depois para a janela, e fizera essa dança durante toda a noite, durante toda a madrugada, pois o sono lhe estava em falta.
Respirou fundo, como se por ultimo suspiro, piscou para molhar os olhos e os voltou para a sua esposa. Como era linda, como dera sorte, trabalhadeira, mão firme, responsável, mãe de seus quatro filhos, que filhos lindos, como deram sorte!
Beijou a mulher, que logo acordou, e lhe retribuiu o beijo, e ali ficaram rolando de um lado para o outro, acariciavam-se, amavam-se, como se aquela fosse a ultima vez. Cada beijo era como um ultimo, como uma despedida e um agradecimento de todos esses dez lindos anos juntos. Um pouco complicados, mas lindos. Como dera sorte!
Levantaram-se, banharam-se, se observaram, como era linda, com a pele parda, o cabelo escuro e os seios ainda duros, estampando o alimento de seus filhos. Enxugaram-se, ela se vestiu e foi para a cozinha, ele deitou-se na cama, olhou para o teto, enxugou a lágrima no rabo do olho, respirou fundo, travou o maxilar para segurar o choro que se aproximava. Colocou a roupa que pendia no cabide, e foi para o quarto dos filhos.
Ao entrar, os observou, eram lindos, puxaram a mãe, a pele parda e o cabelo escuro, não eram feios como o pai, e como ele dera sorte! Passou na cama de cada um, despertando-os com carinhos. Fez com que dessem as mãos e os puxou em fila para a cozinha.
A mãe se assustou ao ver os filhos um tanto sonâmbulos em fila.
- Por que os acordou?- ela perguntou.
- Já passa da hora. – ele disse.
- Ainda nem são seis, você que acordou cedo hoje.
- Mesmo assim, eles têm que acordar junto com agente, logo estou indo trabalhar e quero em despedir.
A mulher não respondeu, nem comentou como aquilo lhe parecia estranho. Serviu o café ao marido, o leite as crianças, e o pão com manteiga para todos, menos para o caçula, que só mamava de manhã.
Depois de terminarem, todos reunidos a mesa, o caçula no colo da mãe, o homem olhou para todos, focava-se por segundos em cada um, registrando as afeições, para que na guerra lhe servissem de consolo, olhou para o café, disfarçando a inundação de seus olhos. Quando estável novamente, os encarou de novo. A mulher lhe sorriu, ainda se lembrando do ato de meia hora atrás.
Ele levou sua xícara até a pia, e recolheu as demais. Todos se levantaram as crianças um tanto dormentes. Ele apoiou-se na pia, e mais uma vez travou o maxilar, suspirou, a esposa tocou-lhe o ombro desconfiada, ele jogou água no rosto para disfarçar.
Virou-se e começou a despedida, cada um como se fosse o único: abraçou o de quinze, o mais velho, beijou seu rosto, e o apertou entre os braços. Depois a de treze, beijou-a, mexeu nos cabelos, como era parecida com a mãe. Depois o de oito, era pequeno, e sumia entre os braços do pai. Depois o de três que logo tirou a chupeta da boca e beijou o pai, isso o fez soluçar.
Andou até a porta, a mulher o acompanhou até fora, olhou nos seus olhos, que já brilhavam.
- Está tudo bem?
- Sim, vai ficar tudo bem, é a palpitação! – ele abraçou-a depois a beijou, e pronto, virou-se e foi, passou pela cerquinha de madeira, e partiu, para nunca mais voltar.
Atravessou a rua com passos pequenos e minuciosos, calculados há muito tempo, passos tímidos e um tanto fúnebres, fazendo-lhe par com a cabeça baixa. Subia o morro, passo após passo, fazendo o ar sair pelas narinas, fazendo-lhe parecer máquina, e após alguns quarteirões e de ter saído da vista da mulher, parou em frente a um boteco.
Bateu com força na porta de ferro, avermelhada pela ferrugem. A porta subiu um pouco, e um homem com uma enorme barriga de fora, ralhou roucamente:
- Mas o que você está fazendo aqui há essa hora? Ainda não abrimos se não percebe!
- Quero duas garrafas de cachaça, um copo e uma sacola onde eu possa os esconder. – o homem disse.
- Estamos fechados!
- Não me interessa, eu preciso e... – jogou umas notas pela fresta que estava aberta da porta -... pago dobrado!
O homem gordo abaixou-se e pegou as notas, as contou, fixou o olhar no homem, depois bufou virando-se para pegar a mercadoria. Ruídos de vidro saíram de dentro do bar, e minutos depois o dono do estabelecimento apareceu com uma mochila rosa e disse:
- A sacola é da minha filha.
O homem pegou-a, escondendo os olhos e com um sorriso aparecendo do lado direito da boca:
- Não faço questão da cor. – virou-se e continuou subindo.
O gordo o observou pensativo, coçou a barriga, mexeu nos bigodes, virou-se e desceu a porta com força, o que explicava alguns amassados na parte inferior dela.
O homem subiu o morro em seu ritmo maquinário. Parou um pouco, tirou um cigarro do bolso e começou a fumar tremulo. Terminou rápido, depois voltou a subir até que chegou à Construção.
Sentou ao lado da cerca de ferro e esperou até que o resto dos operários chegasse, fumou mais uns três cigarros, e o resto dos trabalhadores chegou, desejavam bom dia, mas ele só balançava a cabeça, não fazia questão de sorrir, não fazia questão de agradecer, não fazia questão de retribuir, não fazia questão de mais nada.
Os portões foram abertos, ele entrou, subiu os andaimes, e foi para o quinto andar do prédio que construía, do qual, não desceria com brilho nos olhos, se é que ainda cintilavam.
Começou a fazer as paredes subirem, passava o cimento, depois mais um tijolo. Tijolo por tijolo, cimento por cimento, até formar as paredes solidas que acolheriam uma família feliz. Feliz, mas com uma felicidade ideológica, uma felicidade forçada, da qual já estava cansado.
Cigarro após cigarros, lágrima após lágrima, parede após parede, solidão após solidão. E assim se passou toda a manhã. A sirene tocou, o rapaz do almoço passou, entregando as marmitas. Entregou uma ao homem, mas ela dançou um pouco no ar e depois caiu, pediu desculpas e entregou outra.
O homem sentou-se na beirada do andar, olhando todo o movimento ali em baixo, os carros passavam rapidamente, buzinavam, alguns ciclistas pedalavam, uma senhora estava sendo assaltada na esquina. Continuou ali, sentado, como se fosse sábado, e toda aquela paisagem fosse sua televisão, comia seu feijão com arroz como se fosse um príncipe. E ali ficou, até que o sol passou diante dos seus olhos que ainda se inundavam constantemente, observava um pouco embaçado, os policiais ali em baixo, repreendendo uma rebelião, batiam com o cassetete, cerravam os dentes, franziam o cenho, defendiam sua ideologia canibal, que devorava toda a esperança, toda a alegria, todos seus amigos. Devorava a todos que tentavam opinar, ou mesmo que não concordavam. Se não os devorava os exilavam, para onde o sabiá não canta.
Continuou ali sentado, enquanto todos partiam, desejando uma boa noite, mas ele só balançava a cabeça, não fazia questão de sorrir, não fazia questão de agradecer, não fazia questão de retribuir, não fazia questão de mais nada.
Saiu da beirada, pegou na mochila rosa as duas garrafas de cachaça, e começou a se inundar, a se afogar no mar que se naufragou, e ali, copo após copo chorava e exclamava todos seus erros de toda sua vida pacata. Pedia perdão, pedia apoio, pedia coragem ao Deus que não foi presente nem naquele momento, nem nos anteriores. Não foi presente na hora de defender seus amigos, de defender a vida, de defender a justiça. Bebia toda aquela angustia e toda aquela ira que lhe fazia tão mal. Começou a acender vários cigarros, e a beber mais ainda. Vomitou todos os sapos engolidos.
Com a garrafa na mão, começou a dançar a marcha fúnebre que os violinos tocavam. Sambava, cantava, ria, xingava, chorava.
Acabaram-se os cigarros, o ultimo gole foi tomado, a hora chegara.
Andou até a beirada do andar, e olhou todo o tráfego, estava cansado e irado pela cachaça de graça que teve que engolir, e pela fumaça desgraça que teve que tossir. Até que se encorajou e tropeçou na bebedeira, flutuou no ar como o sabiá que seus artistas não ouviam mais. Para que logo depois caísse como um pacote flácido no chão.
Agonizou toda a derrota que sofria agora, todo o orgulho ferido e morreu na contra mão atrapalhando o tráfego.










"Clockwork Orange" é violento ao extremo. Kubrick não faz cerimônia alguma ao retratar uma sociedade perdida em meio ao caos e não possui delicadeza alguma ao jogar imagens repulsivas de estupros, espancamentos e assassinatos para o jogador. Kucrick está com toda a razão: a melhor maneira de denunciar a violência é mostrá-la em seu aspecto mais sombrio. Não existem eufemismos em "Clockwork Orange": prepare-se para um verdadeiro show de horrores, com cenas absurdamente perturbadoras, onde será comum virar os olhos para não ver o que se segue.


